Papoulas

Pétalas de cores
Tato de pêssego
Rugas no olho azul
Mãe do pai, da mãe, de mim
Nenhum comercial
Queridas donas
Cabelos brancos
Jardim no quintal
Terra, formigas, pólen, flor
Vermelho do amor
Papoulas vivas
Folhas no chão
Estampas no colchão
Tapete rosa, jambo bom
Histórias pra dormir
Eu vibro, lembro
Brigo com o tempo
Saudade a me invadir
Que doce resignação
E sinto bem aqui
Sorrisos, beijos
Colos, bênçãos
Dedico o que sou

Olhos vivos

Vi a urgência da vida no colo da proximidade da morte. A vida sorriu pra mim, fixou seus olhinhos no meu rosto sério. A morte não me viu, tinha o olhar escondido, apertado debaixo das rugas. A vida é quem guiava a morte, pegando-a pela mão, como uma criança a puxar avidamente a mão de uma senhora idosa. A morte tinha uma beleza intensa, do tipo que impõe respeito, e não medo. A morte sorria no canto da boca fechada, tinha a vida, ainda pequena em tamanho, sentada no colo. A vida era curiosa, ansiosa, não ignorava nada nem ninguém, sabia perceber. A morte era cega, do tipo de cego que não precisa ter olhos para enxergar, tinha a sabedoria de uma anciã, a visão não era nada demais. A vida me encarava fixamente, tinha uma expressão enigmática, mas não por ingenuidade ou astúcia. A vida me enxergava e mudamente perguntava o que eu sabia dela. Mudamente, respondi que sabia muito pouco, quase nada. Quase tudo me escapa, eu, que tenho olhos sadios e ainda sou jovem, sou como um cego, do tipo que não sabe nada além do que a visão permite, cético. A vida entristeceu, decepcionada, mas logo voltou a sorrir, olhou para outros rostos, à procura de algo ou alguém que a revelasse o caminho, ela, que dali a poucos minutos, guiaria a morte pelas mãos. Fui embora antes que vida e morte passassem por mim. Eu não saberia qual caminho seguir, e ainda não sei. Eu não saberia qual mão segurar. A vida é uma dúvida quase perfeita, a morte é a sua única certeza.

Talvez, eu...

Talvez eu precise de um choque,
um raio que me parta ao meio,
mas vem à mente agora um receio,
talvez então eu não resista mais.
Talvez eu só precise de um soco,
uma pancada que me deixe oco,
pra ver ser fico mais ou menos louco,
talvez eu sobreviva além.
Talvez eu só precise de um tempo,
quanto será que dura o pensamento,
um mês, uma semana ou dez minutos,
talvez eu cale a boca ou não.
Talvez eu queria ser deixado a esmo,
verás que talvez seja isso mesmo,
quem sabe a solidão me dê um jeito,
talvez eu pare e cresça.
Talvez eu necessite um longo beijo,
que rasgue o corpo, a alma e o desejo,
que aqueça e me congele ao mesmo tempo,
talvez eu reconheça.
Talvez eu queira estar contigo sempre...

Feira sobre trilhos

O metrô era antes sinônimo de rapidez, modernidade e conforto coletivo. Mas as coisas meio que saíram dos trilhos. Hoje em dia, tudo é possível no metrô, um pandemônio de oportunidades se abre a cada dia para muitos que encontram no meio de transporte um meio de sobrevivência. Tem de tudo e tem tudo ao mesmo tempo... Só não é possível ter uma viagem tranquila e rápida, afinal, o turbilhão de acontecimentos dentro dos vagões transforma qualquer percurso de vinte ágeis minutos em um sofrimento prolongado de empurrões, barulho e completa desordem. Para começar o dia, com a habitual lotação de sempre, há aqueles pregadores insistentes e sem qualquer noção de decibéis. Gritam, incomodando "o silêncio da viagem" com a dita palavra de um deus que jamais gostaria de perturbar alguém. Os pregadores falam mais em diabo do que em Cristo e fazem cara feia quando alguém recusa seus panfletos. Chamam todos de "amados", mas desconhecem o significado do verbo, que dentre tantas coisas também significa compreender e respeitar as escolhas e os direitos do outro, nem que seja o direito de não ouvir certos discursos ou escolher não "aceitar" o que nos empurram goela a abaixo. É uma verdadeira crueldade com o próximo, afinal, podemos fechar os olhos, prender a respiração por alguns instantes, mas nunca parar de ouvir. Próxima estação: passatempo da viagem. Água, guaraná, batata, "doritos", "mentos", "chokito", salgadinho de queijo, paçoca, amendoim, castanha, pipoca doce, "saguada", biscoito e até bala de gengibre! A praça de alimentação também invadiu os trilhos... Proibiram os ambulantes nas ruas? Para onde eles foram? Para as linhas ferroviárias da cidade. Nesse itinerário caótico, não são "oferecidas" apenas guloseimas, aos berros, entre os vagões nada vagos: vendem carteiras, porta-moedas, bolsas femininas, óculos, pulseiras, bonés, meias e até agulhas de costura! O vestuário saiu das calçadas e lotou o metrô na hora do 'rush'. Próxima parada: barulho amplificado. Independente se é lei ou não, ouvir "música" num lugar público como o metrô deveria ser um ato solitário. Sou a favor da distribuição gratuita de fones de ouvido aos passageiros recém portadores de 'smartphones' que querem anunciar ao mundo o seu pertencimento à classe digital da telefonia contemporânea. Discutir a seleção musical desses importunadores do silêncio alheio é perda de tempo. O pior desse tipo de poluição sonora é o volume: querem que todos ouçam, do maquinista àquele pedestre que ainda está pagando a passagem do lado de fora da estação. E ainda há "vendedores" de Cds e Dvds que fazem questão de testar o produto ali mesmo entre aqueles que tentam arduamente se segurar em meio a solavancos e pisoteamentos do abre-e-fecha portas. E por falar em poluição, que tal imaginar para onde vão todas essas embalagens? Para o chão dos vagões, obviamente, vestígios sólidos ou líquidos. Pois é, a educação doméstica não pega metrô. Agora, como se não bastasse, é a vez dos mais descarados dos cidadãos sem cidadania. É impressionante a quantidade de pessoas que não respeitam o espaço do outro, literalmente. Há assentos destinados a idosos, deficientes e gestantes, porém, sempre ocupados por "pessoas" que não se enquadram em nenhuma dessas características, a maior parte delas, inclusive, ostenta fardas escolares e jeans. O que se passa na cabeça desses jovens insensíveis? Provavelmente nada além da paisagem na janela... Última (e sofrida) estação: ONGs. Sob a desculpa de tirar jovens (que ocupam o lugar dos idosos?) do "submundo" das drogas, várias instituições se apropriam dos vagões para disseminar a cultura da miséria, usando palavras religiosas e sotaques forçados para convencer e sensibilizar pessoas cujo único vão desejo é chegar em paz (e silêncio) ao trabalho. São um misto de tudo isso: pregadores, vendedores e pedintes, tudo ao mesmo tempo. Gritam, insistem, acumulam lixo e ainda chamam você de mal educado caso se recuse a segurar o produto "sem compromisso". Enfim, basta estar no metrô para passar a concordar que o fim está próximo. Mas, antes que o apocalipse chegue de uma vez, vai querer pipoca doce ou salgada?

Nada a declarar

Em tempos onde tudo pode e será usado contra qualquer um que abrir a boca (ou publicar um texto, nem que seja de 140 caracteres), é preciso ter cautela com o que se diz, ou se divulga. Tudo é inédito hoje em dia, ou pelo menos parece ser, ou não, não mesmo. Mas há coisas que se repetem, mas de uma forma jamais antes repercutida. A humanidade correu na velocidade da tecnologia, mas esqueceu de evoluir junto. Não teve tempo? Dizem que as atrocidades que acontecem no mundo, no país, na cidade, no bairro, na rua, aqui na minha casa, enfim, dizem que as coisas ruins existem por culpa do governo (ou da falta dele). Não há quem discorde. Porém, o maior inimigo da população parece ser a própria população. A vida em sociedade está caminhando para o caos? Talvez numa tentativa de se chegar logo ao fundo do poço... Masoquismo ou distúrbio mental cíclico, não se sabe. Parece-me que as pessoas estão demasiadamente acostumadas ao descaso e ao sofrimento a tal ponto que, na tentativa de agir, procuram caindo naquilo que as aprisionam ainda mais em seus atavismos sociais. Como curar a violência com violência? Como curar a fome do outro se abastecemos apenas a nossa própria despensa? Pensamos em estocar comida somente quando não estamos mais "livres" para andarmos nas ruas, quando dificilmente juntamos um quilo de alimento para aquele mendigo da esquina. E ainda o chamamos de vagabundo, ateamos fogo, afinal, quem se importa com aquele invisível ser (humano) que, por mera ironia, é biologicamente igual a mim, mas que, por minha própria sorte, jamais teria a capacidade de atear fogo em mim? Não me admira haver tantas histórias retratadas até mesmo no cinema contemporâneo que "simulam" um futuro próximo caótico em que o atual sistema social inexiste, uma espécie de barbárie mascarada de futurismo. Retrocesso, fatalidade... É melhor não procurar rótulos para não recair na frustração. Tantas coisas estranhas acontecem, será por um mundo melhor? Será que é preciso bagunçar a casa para poder fazer uma faxina de verdade? Se há alguém responsável por essa faxina no mundo, já deveria ter sido demitido por abandono de trabalho. E as pessoas não podem ir trabalhar, estudar, passear ou construir uma vida material um tanto melhor para si mesmas. É transporte que não atende a demanda, é telefonia ruim, é a falta de oportunidade, é a saúde que não se tem, é a educação precária, ausência de lazer, pão e circo... Coisas inimagináveis nos sonhos de criança. Imagina só se o pessoal da limpeza pública fizesse greve? Imagina se os coveiros também parassem? E os bombeiros? Só não abala mais as pessoas as greves do professores, o que só revela o quanto damos valor ao concreto, ao que é material, àquilo que nos atinge de forma mais física e imediata possível. Damos muito pouco valor àquilo que aprendemos. Tudo é motivo de revolta hoje em dia, afinal de contas, como cachorro que apanha, a sociedade vive arisca, com a espada na mão e o dedo no gatilho. Andamos com medo de tudo, síndrome do pânico, e somos facilmente irascíveis. Há sofrimento nos quatro cantos da cidade. É preciso sim ir às ruas para protestar, é preciso mostrar-se insatisfeito a tantas coisas! Uma das maiores falhas da parcela "boa" da população é justamente a omissão. Entretanto, não é que os limites foram ultrapassados. Na verdade, atualmente eles deixaram de existir. Não há mais respeito nas ruas. Como todo primata, o homem aprende a partir daquilo o que vê e repete. Que tal começarmos a repetir os bons exemplos? Bons para quem? Para mim, para você... É preciso dar o exemplo, afinal a humanidade não está, como já disse, tão distante de sua primitividade intrínseca, somos quase irremediavelmente vingativos, orgulhosos e egoístas. Vivemos numa sociedade desumana, em que cada um só quer saber do próprio umbigo, de modo que cada um busca satisfazer apenas as suas próprias aspirações e não os desejos (ou necessidades) comuns. Tudo é política e quase toda política é egoísta, o que destoa até do próprio conceito. Oportunidades de bem-estar social são oportunidades de autopromoção política, existir é política, até para quem não entende ou nem sequer sabe. Até mesmo para aquele que faz política ao escrever um texto ou concordar com opiniões deturpadas de mentes doentes, como a de alguns jornalistas e figuras públicas. As pessoas confundem tudo. Confundem o que é dito na mídia como senso comum e fonte de verdade absoluta. Jornalismo é política. Religião (por mais que não se acredite) também. Tem gente que acha que todo artista faz arte apenas por gostar. Arte obviamente é politica: cinema, música, literatura... Poucos são os artistas que não querem ser instrumentos de ideologias, mas ainda assim, o são. Isentar-se de tudo é uma forma de fazer política também, afinal, até quem odeia política está fazendo política. Como costumo dizer, ignorar também é uma forma de atitude. Mas qual seria então o caminho óbvio num mundo tão covarde? Fugir. Alguns vão dormir, outros pedem para mudar de assunto, outros trocam de canal na hora do jornal, outros vão namorar, comer, enfim, cada um busca a sua melhor rota de fuga para não enxergar as coisas ruins ao redor (ou em si mesmo). Parece-me que por não querermos olhar as mazelas por trás do nosso muro, nos privamos da liberdade de ver e ouvir e até de tomar conhecimento de tudo. Não é novidade que hoje as pessoas "de bem" vivem aprisionadas enquanto os bandidos (mesmo quando encarcerados) comandam o mundo e a nossa vida. É como se tudo fosse resultado de uma reação química que deu errado, explodiu, big ben. Que tal um novo sistema solar e um novo planeta para vivermos e recomeçarmos do zero? Daria jeito? Jamais, recairíamos no mesmo erro do purismo social, racial, intelectual... A humanidade não nega as suas raízes bárbaras e irracionais. Ninguém nasce sabendo em quem vai votar ou quais as normas impostas pela sociedade em que vai viver, mas nascemos com o conhecimento do bem e do mal, crescemos aprendendo o que é "feio" e o que é "bonito", o que se faz e o que não se faz. E tudo isso torna-se mais fácil quando alguém anteriormente já nos ensinou. E esquecemos de praticar. Quando a polícia, que não deixa de ser uma forma política de manter a dita ordem e a segurança, resolve cruzar os braços, o mundo vira a internet: terra (ainda) sem lei. O dia vira episódio de seriado americano ou capítulo de Saramago. Ficção torna-se realidade e não o contrário. e há quem afirme que vivemos na tal era da inversão de valores. Coisa do passado. Hoje, os ditos valores sociais deixaram de existir. Tudo é individual, menos a vergonha. Seria uma nova e reinventada forma de revolta? No caminho para onde estamos indo, tudo fica confuso, não por não sabermos onde é o fim do poço, mas por não querermos ver que no fim do túnel a única luz que brilha é talvez a da vida eterna, ou seja, estamos sem saída. Ao menos, é o que dizem alguns que já desistiram de acreditar na melhora ou no lado bom e humano da "humanidade". E as cidades são estremecidas com tanto descaso (político) e tanta gente querendo fazer justiça com as próprias mãos. Uns gritam: "respeita a polícia!", e tem gente metendo a mão na cara dos policiais, armados, os mesmos que diante da própria morte recebem migalhas como salário, enquanto os políticos esbanjam em jatinhos particulares pagos às nossas custas. E por isso a corrupção é tão comum em todos os cargos, níveis e profissões. Esse é o exemplo que se tem, sobretudo nesse país, terra de samba, futebol, novela e caipirinha. Não precisamos mais do "jeitinho brasileiro", até porque essa é uma noção antiga. O jeitinho brasileiro de hoje em dia é o da hipocrisia. Vendemos o país como a terra do alto astral quando até os astros e corpos celestes já deixaram de reger os nossos destinos... Bem-vindos à era da vergonha alheia! Basta a polícia dar as costas e sumir (oficialmente) para que o caos se instale e uma cidade se torne a casa da "mãe joana". Brasil: somos todos palhaços e não macacos, por mais que primitivos. Mas todo esse cenário (político) tem um lado ainda mais difícil de ser encarado: a dura realidade de enxergar e perceber o quanto estamos longe de uma evolução que nos torne digno de sermos chamados "humanos", no sentido mais simples da palavra, palavra esta que não deveria ter mais de um sentido. Sob a justificativa injustificável de satisfazer os próprios interesses, enganamos, quebramos, batemos, roubamos e até matamos. Sinto muito, mas a ocasião NÃO faz o ladrão, apenas oportuniza e transforma em atitude a má índole e a falta de respeito que já existe dentro de si. Independe se é fruto do sistema capitalista, se é resultado dos desmandos políticos, se é o desejo reprimido por não se ter a condição de consumir aquilo que a mídia impõe em seu discurso (também político). Caráter não se vende, não se compra, praticamente, nasce-se com ele. Qual o direito que se tem de tirar o que é do outro? E tirar a vida? Roubar não é justificativa para condição social nem mero oportunismo, é violência e desrespeito entre humanos. Roubam as lojas, fazem arrastões em shoppings, depredam patrimônios particulares, tudo para, ironicamente sem perceber, reafirmar o próprio pertencimento ao sistema que tanto combatem. Pura ignorância (política, ideológica, moral, espiritual). Somos roubados a cada instante: roubam-nos o silêncio da noite, roubam-nos a paz de um acordar sossegado, roubam-nos a liberdade de andar na rua, de chegar tarde em casa, de namorar na praça, de pagar nossa própria conta com o dinheiro suado de cada mês, roubam-nos a certeza de que devemos acreditar que o mundo será "melhor" amanhã. Mas já vivemos o futuro! Buscamos o futuro depositando nele o que há de bom em nós, humanos. E ainda reclamamos quando os mais velhos ficam saudosos de outros tempos... Por isso a necessidade de se viver o presente, independente de discurso político, moral ou religioso. A lei maior que deveria reinar em todas as sociedades e consciências é simples e direta: não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fosse feito. As pessoas não são obrigadas a amar a todos indistintamente, nem mesmo a conviver como irmãos, nem a obedecer doutrinas ou filosofias complexas. O pouco que se pede, quer dizer, o pouco que precisamos, ainda, é muito para nossa atual mediocridade e está bastante além daquilo que podemos oferecer. Só se dá aquilo que se tem e há muito que, de verdade, ainda não temos. Infelizmente, são poucos os que tentam preencher a lacuna.

Coitadinho

Eu não sou vítima.
Não preciso de comiseração.
Não sou eu quem vive preso a atavismos
nem a filosofias sem fundamentação.
Eu não sou vítima
nem minimamente menor (do que és),
nem minimamente maior (do que sou).
Mas eu respeito qualquer opinião.
Eu não sou vítima.
Não sou humilde nem bondoso,
não sou covarde nem preguiçoso,
mas sei onde é o meu chão.
Eu não sou vítima
do medo, do erro, do esquecimento,
do vício, do míssil, do preconceito.
Eu não sou vítima.
Não sou eu quem ignora
o mundo, o dia, a hora
quem entra, quem chega, quem vai embora (agora).
Eu não sou vítima.
Sou meu próprio culpado
(e não quem anda ao lado)
e não vou perseguir os inúteis, incompetentes ou mal educados.

Alagados

A chuva emburrece a cidade.
A idade da cidade não ajuda a chuva.
A onda da lama no asfalto tem surfista, jacaré e navio.
Quem viu, deu meia volta.
Quem veio, usou o freio.
O mar invadiu a avenida por causa do cuspe de São Pedro.
Imagina se ele abre as torneiras e inventa de lavar o céu!
Meu Deus, a cidade afunda e não há sobreviventes.
Todos morrem, emudecem.
Acabam-se as buzinas e os finos de moto.
De fato, todos mortos, mas ninguém afogado.
Morreram de infarto, de tanto esperar o trânsito.
Abre o semáforo e nada anda.
Nada ainda, pois tudo finda.
Não há mais barulho, não há festa.
Não tem menino vendendo pipoca a centavos.
Não há velho, bicicletas nem carros.
Não há pedinte nem pseudos poetas.
Só lama, caos e tudo revirado.

O novo novo

O novo já se foi no bonde do tempo
O novo fluiu no passado do futuro
O novo já se caducou no mundo
O novo rei do jogo
A nova diva negra
O novo controle remoto remoto
A nova máquina da morte
O novo corte do modelo
A nova cor da primavera
O novo som da discoteca
O novo trem das onze doze
A nova liberdade
O novo personagem velho
A nova queridinha da América
O novo telefone sem fone sem fone
A nova fome lá da África
O novo partido partido
A nova música mais antiga
A nova recordista chinesa
A nova construção ruína
O novo amigo descartável
O velho miserável é o novo é o novo é o novo...
por Anderson Paes Barretto