Multipersonalismo

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O Patinho (que não era) feio

A Pata Mãe aguardava ansiosa para conhecer os seus filhos, na última noite ela havia botado quatro lindos ovos. Estava um pouco tristonha, pois o Pato Pai, naquele momento, estava sendo servido aos quatro queijos no jantar da família. A fazenda era imensa, havia outros patos por lá, mas família é sempre família, e a Para Mãe se consolava ao saber que não ficaria sozinha, teria quatro filhos para criar. A noite foi longa e depois de algum tempo, os ovinhos foram se partindo e então os patinhos começaram a dar o ar da graça. O primeiro deles era a cara do pai, o que encheu a Pata Mãe de orgulho e curiosidade para conhecer o segundo filho, que por sua vez, era a cara da mãe. O terceiro patinho era uma graça, uma verdadeira mistura da Pata Mãe e do Pato Pai, o que fez a mamãe orgulhosa suspirar de alegria. Mas o contentamento não durou muito, bastou a Pata Mãe botar os olhos no caçula, o quarto e último patinho a nascer. Ele demorou um pouco para quebrar o ovo, mas finalmente conseguiu. Ao ver a cara daquele último patinho, a Pata Mãe ficou nervosa, afinal, aquele patinho não parecia nem um pouco com ninguém da família, nem com a mãe, nem com o pai, nem mesmo com os irmãos. O que os outros patos e patas da fazenda iriam pensar? Mas graças a Deus, a aflição durou pouco, pois a Pata Mãe lembrou que os bichos não pensam, ainda mais as aves, que nem parecem ter muita inteligência. Daí então, a Pata Mãe começou a olhar com mais atenção para aquele patinho diferente. Ele nem parecia da família, mas ela tinha certeza de que ele era seu filho tanto quanto os outros três. Ele era um pouco fora do comum, frágil, delicado e incrivelmente bonito, lindo, como nenhum outro pato jamais havia sido. O patinho, que não era feio como os outros, era também um pouco quieto e silencioso, movia-se com cautela e se comportava como se fosse da realeza. A Pata Mãe decidiu chamar o velho Galo para dar uma olhada, afinal, além de velho e experiente, ele era o mais esperto de todos, sabia como ninguém a hora em que o dia iria nascer, e não havia errado um dia sequer. Ao ver o patinho, o Galo deu um grito de espanto e saiu correndo, as galinhas e as outras patas iam chegando e, espantadas, saíam de fininho, assustadas com tanta beleza. Foi então que a Pata Mãe ficou indignada com aquela reação coletiva. Será que ninguém nunca tinha visto um patinho tão bonito? Era feio ser bonito? Aquele patinho tinha uma beleza tão grande, mas tão grande, que todos os outros bichos sentiam inveja dele e não entendiam como uma família tão feia poderia ter um bebê tão lindo! A Pata Mãe reclamava de tantos elogios ao belo patinho, pois sabia que todos só queriam mesmo era olhar para ele até ver se a beleza se espalhava, o que nunca aconteceu. A Pata Mãe começou a proteger o seu filho de uma forma tão intensa que ela parecia uma verdadeira mãe coruja! No fundo, ela tinha até mesmo certo orgulho por ter gerado aquele ser tão magnífico, ela que nem bonitinha era. O patinho foi crescendo e numa tarde ensolarada resolveu passear um pouco pela fazenda, mas ninguém falava com ele, todos os outros bichos ficavam parados, boquiabertos com a sua beleza. Nem mesmo os seus irmãos patinhos falavam com ele, tinham ciúme dele, pois achavam que só por ser bonito, ele era o preferido da Pata Mãe, o que não era verdade. Para uma mãe, não existe filho preferido, o amor é grande de todo jeito. Foi então que o patinho bonito foi ficando cada vez mais sozinho e não conseguia entender o motivo de ter nascido tão belo daquele jeito. Mas que falta de sorte! Ele queria ser igual aos outros patinhos, mesmo que fosse para ficar feio, não importava, afinal, o pior era incomodar os outros. Mas que culpa tinha ele de ser tão belo? A beleza não o aproximava dos outros, na verdade, ela assustava e nem todos a compreendiam. E foi exatamente assim que o patinho ficou, triste, sozinho e cada vez mais lindo. Os outros bichos nunca tinham visto uma beleza como aquela, era como se todos a desejassem para si e, como não era possível, não aceitavam que alguém ali entre eles fosse dono de tanta beleza. Parecia que todos os outros estavam sempre incomodados só de olhar para ele, talvez por reconhecerem em si mesmos o quanto a beleza lhes faltava. A verdade não é algo fácil de ser vista com bons olhos. E então os animais esperaram alguns dias para que o patinho bonito crescesse um pouco mais e não dependesse tanto da Pata Mãe. Eles se reuniram no finzinho da tarde e resolveram expulsar o patinho daquela fazenda, não o queriam por perto, a beleza doía, era incômoda demais. A Pata Mãe tentou defender o filho, mas foi a única. Então os bichos ameaçaram expulsá-la também se ela resolvesse atrapalhar o plano. Ela então calou, mas ficou muito triste, afinal, não queria ser expulsa. O patinho, que estava ainda mais bonito, ficou horrorizado com aquela decisão coletiva e aprendeu na mesma hora que a beleza é algo que não existe apenas por fora, ela também vem de dentro, e aqueles animais não a tinham nem de um jeito nem de outro. O patinho foi embora, sozinho e a vida foi voltando ao normal naquela fazenda de bichos feios. Hoje em dia, de vez em quando a Pata Mãe se lembra do filho mais bonito que ela já teve em sua vida de pata, lembra que ele sempre foi bonito, por fora e por dentro. E por falar no patinho bonito, após andar uma noite inteira pela estrada de barro, encontrou uma lagoa que refletia a luz do Sol. Era uma visão tão bonita, que ele se sentiu em casa. Lá ele foi adotado por uma família de cisnes e, mesmo diferente, era muito querido por todos. Para ele foi muito melhor, afinal, nunca seria servido aos quatro queijos numa mesa de jantar.

3 comentários:

  1. Um texto que parece um prisma, por me mostrar tantos lados e interpretações. Como não quero parecer bobo com as conexões que me vêm a cabeça, vou ficar por hoje só com o elogio para o belo e tocante texto.

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  2. An, adorei o texto, acho que muita gente já se viu na pele de um patinho lindo, meio deslocado do mundo, não por ser lindo, mas por ser diferente. Profundo e tocante... encantador!

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por Anderson Paes Barretto